quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Os 18 anos de Matheus

Maternidade Alexander Fleming, Marechal Hermes, Rio de Janeiro.
Domingo, 10 de dezembro de 1990, 8h30min

Deus é muito bom. Nesse local e nessa data dava mais um de seus abençoados presentes ao mundo: o recém nascido Matheus Duarte. Mostrando que pode muito bem ser generoso com as pessoas, deu a Carlos Reis Ramos (conhecido artisticamente como Kid) e a Marilza Duarte de Oliveira o mais maravilhoso filho que podiam querer.
Passados os dias na maternidade, Matheus foi conduzido ao seu primeiro lar fora do ventre materno, onde receberia uma excelente criação de seus pais.
Tendo passado pelo colégio Arte Viva, pro qual só ia pra comer areia, Matheus se viu obrigado a ir para a escola Jardim Cantinho Feliz, aprendendo precocemente a ler e escrever, arrumando confusão com os coleguinhas e se tornando um dos mais perseguidos de sua turma. Essa perseguição se arrastou pelos anos de Fonte do Saber, colégio onde estudou até completar a 4ª série, aos 10 anos.
Enquanto isso, Matheus ia descobrindo o mundo que havia do lado de fora de sua casa. Ia conhecendo a rua, o futebol com golzinho de chinelo, as conversas sentado ao meio-fio. Isso tudo na rua Torquato Tapajós, onde morou até os 9 anos.
Imerso em outro período de sua vida, mudanças aconteciam na vida de Matheus. Da Torquato Tapajós, Matheus foi morar na rua Auriflama no ano de 2001, onde ainda mora. E, da Fonte do Saber, Matheus foi, graças a um desconto ganho pela nota no bolsão, ao Santa Mônica de Bento Ribeiro. Enquanto morador de sua rua, Matheus fez um grande amigo: Hugo.
Enquanto isso, Matheus ia adquirindo conhecimentos no Santa Mônica e, no ano de 2002 fez uma das maiores amizades que tem até os dias de hoje: Wallace.
No mesmo Santa Mônica, já em 2003, Matheus teve a oportunidade de vir a fazer outra de suas maiores amizades até os dias atuais: Renan.
Depois de sair do Santa Mônica e, paralelamente, se mudar da rua Auriflama, Matheus passou 3 anos imerso na pior fase social de sua vida: a Melhoral, lugarejo de muita gente favelada localizada no ânus de Guadalupe. Ali, Matheus perdeu o contato com seus melhores amigos e se viu limitado ao pessoal de seu novo colégio: Pio XII. Mas não havia ninguém por lá que tivesse a mesma importância que tiveram, anteriormente, Wallace e Renan. Assim como, na Melhoral, não havia ninguém com a mesma importância de Hugo. Inconformado, Matheus decide deixar o cabelo crescer até dizer chega, como quem vê a vida perder certa parte do sentido.
Apesar de tudo, nesses 3 anos que deveriam ser de puro sofrimento, Matheus desenvolveu a maior paixão que tem até hoje: a música. Tardes e noites assistindo a MTV (na novidade que era o gato-net até então) e aprimorando seu talento no violão. E, tendo contato com o mundo musical, Matheus começou a desenvolver o sonho de ser parte de tal mundo. Sonho que ainda mantém uma pequena chama acesa em seu coração até hoje.
Em meio ao isolamento que lhe foi imposto, Matheus teve condições de se preparar pra seu maior objetivo estudantil até então: a prova pro CEFET-RJ. No período em que estudava para tal, Matheus teve o braço direito quebrado e foi impossibilitado de distrair sua mente com o violão nesse período. No início de 2006, Matheus viu seu esforço premiado com a aprovação no Cefet e na Faetec de Quintino.
A vaga no Cefet só dizia respeito ao ensino técnico, que só começaria no segundo semestre. Nesse primeiro semestre, a mãe de Matheus decidiu fazê-lo aproveitar tal período estudando na Faetec. Porém, sabendo que merecia coisa melhor e assustado com algumas cenas vistas no banheiro masculino, Matheus optou por sair da Faetec e esmolar uma vaga no ensino médio do Cefet.
Após ouvir da boca de um secretário do mesmo Cefet que receberia uma vaga no colégio Pedro II para seu ensino médio, Matheus tomou a triste decisão de aguardar o prometido telefonema do babaca lá. O telefonema não aconteceu e Matheus perdeu o ano letivo de 2006 por acreditar na palavra do tal cara.
Em abril de 2006, Matheus viu seu ciclo da Melhoral chegar ao fim e voltou para a rua Auriflama. Lá, restabeleceu o contato com Hugo e passou a ter grande amizade com Lucas, Hygor, Caio e Dinho. Nesse ano, Matheus voltou a jogar futebol após 3 anos fora de atividade e percebeu que tinha perdido tal dom.
Em 2007, Matheus tornou-se vítima do péssimo ensino estadual do Rio de Janeiro, indo estudar no colégio Joel de Oliveira, alcunhado posteriormente por Matheus como “Muquiçolégio”, devido à péssima localização do reformatório disfarçado de escola.
Contrastando com a nova realidade que via diante de seus olhos, Matheus via o fracasso no curso de edificações que fazia no Cefet se anunciar. Em abril de 2007 perdeu grande parte da motivação para continuar no Cefet se perder quando teve de lidar com a desistência de seu único amigo que lá fez: Maurício. Graças à internet e aos encontros desajeitados, a amizade entre ambos não acabou com o fim da jornada cefetiana.
Enquanto isso Matheus iniciava outros dois cursos paralelos: inglês no Fisk e espanhol na Angloschool. Matheus nunca foi muito com a cara dos dois, tampouco com a cara de seus companheiros de turma em ambos. Até hoje a situação se mantém, salvo algumas exceções no Fisk.
No começo de 2008, Matheus inicia a melhor fase de sua vida. Se junta a Equipe Diretoria Hang e retoma o contato com seus amigos de Santa Mônica: Wallace e Renan.
2008 foi um ano de mudanças e decisões difíceis para Matheus. O tão doloroso corte de cabelo e a desistência do Cefet refletiam isso. Ao mesmo tempo, Matheus perdia a paciência com o péssimo ensino de seu reformatório/escola. Pra sua sorte, havia alguém pra lhe fazer companhia num momento tão difícil e alimentar consigo os sonhos com uma vida futura melhor: Jéssica.
E eis que, no fim de 2008, Matheus fez 18 anos. Tornou-se um adulto e está pronto pra tomar patadas do mundo que o aguarda lá fora. Ainda aprendendo com a vida... aprendendo que é possível fazer grandes amizades em 3 meses como: Tati, Gabi e Flávia. Aprendendo que deve valorizar cada minuto de sua jornada na Terra, pois ela pode acabar a qualquer momento sem ter sido divertida. Aprendendo que deve valorizar todas as pessoas que o amam, pois sem elas ao seu redor, a vida não teria sentido.
Pois é, amigo leitor de blogs... 18 anos. A idade tão almejada pelos adolescentes. Idade pra comprar bebidas sem empecilhos, idade pra freqüentar casas de prostituição. Idade de sair sem pedir permissão pros pais, de ver o que quiser na televisão sem embargos.
Idade também pra tomar cuidado com cada ato a ser tomado. Idade pra ir pra cadeia, arrumar um emprego e não ter que ser sustentado pelos pais, necessariamente.
Pois bem, amigo blogueteiro... Este dia chegou para Matheus. A partir de agora seu orkut indicará sua idade real. Um novo mundo estará diante dele. Mundo que ele ainda não desvendou em 18 anos. Mundo que agora parece mais nítido diante de seus olhos. Chegou a hora de encarar esse mundo e cada desafio que ele pretende lhe impor de agora em diante. Não há mais qualquer barreira que impeça o mundo de diferir a ele toda a crueldade que o impomos a cada problema que temos.
Mas esse dia ainda chegaria. Cedo ou tarde. Resta torcer pra que Matheus saiba como encarar esse mundo como adulto que passou a ser...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ficar pelado e pagar mico - Minhas aventuras nos dias de milico

Senhor visitante do Bloguiço, tenha um bom dia. Saiba que você deveria encarar essa visita ao blog, que não é mais do que uma obrigação, como uma grande honra e uma única experiência de vida.
Escroto né? É péssimo pra alguém que, na idade de conseguir a total independência dos pais, saber que tem que ouvir o que não quer de um bando de tenentezinhos de merda. Ainda mais sabendo que a mais branda reação pode ser vista como um desacato (e aí você estaria muito fodido).
Num país onde a mais alta autoridade só estudou até a 5ª série (embora minha professora no curso de inglês me tenha jurado que ele fez uma faculdade), a mesma palavra “autoridade” não deveria ter grande valor. Mas, pelo contrário, algumas leis, como a do alistamento militar obrigatório, têm quase um cunho que recorda os tempos de autoritarismo.
“Ah Matheus, deixa de palhaçada! Você não queria servir por causa daquele cabelo horrível e porque você é muito inteligente e tem um maravilhoso futuro pela frente!” Também, caro leitor. Mas, convenhamos que ninguém deveria ser obrigado a fazer algo que não goste, ainda mais por um país o qual não goste.
Pois bem, 2008 chegou (já faz algum tempo...) e, com ele, o drama da maioria dos jovens de sexo masculino nascidos em 1990: o alistamento (obrigatório) militar.A juventude de hoje em dia não se interessa muito por exército, nada onde o suor seja algo comum é bem vindo. Seja quanto à prática de esportes, ou ainda uma eventual ajuda aos pais nos serviços domésticos. Imagina então ralar pra um bando de sargentinhos metidos a capitão Nascimento? Ninguém hoje em dia é muito de fazer esforço sem recompensa.Há sempre algumas exceções. Conheço alguns jovens que quiseram servir e tenho contatos com gente mais velha, como meu próprio pai, que teve prazer em “prestar serviços à nação”. E, claro, sempre tem o papo de “você vira homem quando entra pro exército”.Dentre os que vêem o alistamento militar como um pesadelo, como eu e a maioria das pessoas que conheço, a palavra que mais vêm à cabeça nesse período é “sobrar”. É o que a quase todos querem.No meu caso, como já disse, não é diferente. No meu ponto de vista servir uma nação que não serve pra mim não faz sentido. Uma nação que não presta serviços a mim não merece que eu preste serviços a ela. Ainda mais sabendo que eu não teria qualquer tipo de vantagem fazendo flexões pra um bando de gente fardada que gosta de mandar. Perderia meu precioso tempo e interromperia o colégio e os cursos. Tudo porque cismaram que num país sem moral internacional, há quem ache que obrigar os jovens a fazer algo sem sentido real seria bom.Pois bem, em medo a todos esses pensamentos, fui, no dia 24 de abril, cumprir o que a lei ordena. Às 08h12min (12 minutos de atraso graças aos 31 minutos que fiquei esperando pela droga do 723, fica aqui o desabafo) cheguei à junta militar pronto pra ficar pelado na frente dos sujeitos e/ou cortar o cabelo após 4 anos de amor e carinho. Já estava com todas as desculpas na ponta da língua: filho único, 4 graus de miopia (é verdade, eu sou cego), 3 cursos e tipo físico inapropriado. Isso porque não levei a sério as dicas de afirmar ser testemunha de Jeová, ir com uma camisa da campanha “Lula 94” ou ainda alegar homossexualismo.Por causa desses 12 minutos de atraso fui obrigado a ficar no penúltimo lugar na fila. Com isso só saí de lá às 11h45min, enquanto os primeiros da fila saíam às 9 horas. Nesse meio tempo, um pouco de tudo me passou pela cabeça.Logo que cheguei, o moleque que estava na minha frente (vim saber depois que este se chamava Tiago) veio me perguntar algo relativo à multa. Quem me conhece sabe o quanto tenho a audição prejudicada pelo uso excessivo de mp3. Escutei algo tipo: “dabuçadiquiagidi multa?”. Como a melhor resposta deveria ser negativa, já que ninguém gosta de multa, respondi: “Não, cara. Acho que não.”. Esse Tiago aparentava ter 30 anos, e isso me chamou atenção para o fato que minha mente (lerda) demorou a atestar: todos naquela bendita (ou maldita) fila tinham 17 ou 18 anos, embora alguns parecessem ter 14 e outros 41.Como moleque burro metido a pensador que sou, comecei a reparar em cada um dos rostos e cheguei à conclusão: ninguém aqui quer servir. Lá pude ver gente de todos os tipos: piercings na boca, tênis de R$400, sinais evidentes de futura calvície, tatuagens, marcas de queimadura na pele, tudo mesmo. E todos com a minha idade.À medida que o tempo passava maior era a minha vontade de ser chamado rapidamente e acabar de uma vez com o pesadelo. Entretanto, meu atraso me condenou ao sofrimento em maior tempo. Aos poucos a fila se esvaziava e ia chegando o meu momento de encarar o fatídico momento.Quando enfim chegou minha vez, eu e os outros 5 que estavam na minha frente (esqueci de falar, eles iam chamando de 6 em 6) fomos dirigidos a uma sala onde daríamos as informações necessárias, como endereço, CEP, telefone e essas paradas. Em meio a essas perguntas todas, que já vinham confundindo minha cabeça, o sujeito perguntou: “Deseja servir, Matheus?”. Por um segundo meu piloto automático pensou em responder que sim, mas rapidamente tomei consciência da besteira que faria e mandei o piloto automático tomar no cu. Respondi, obviamente, que não. Ao sair daquela sala, fui encaminhado à outra, onde assinaria um documento qualquer lá e colocaria minha impressão digital (é a mesma coisa que carimbar um dedo com tinta num papel) no fatídico documento. Na fila para a limpeza do dedo (vale citar que eles cediam uns papéis de uns documentos malucos lá e a gente tinha que se virar com aquilo), Tiago, notando minha respiração ofegante, indagou-me: “Tá nervoso cara?”. Respondi que sim, já que chegaria tarde ao colégio. Depois disso, fui a mais uma sala, vi um cara escrever alguns dados sobre mim e fui dispensado, só tendo que me apresentar no dia 2 de outubro. SÓ ISSO. Vi-me livre do pesadelo sem ficar pelado e/ou cortar o cabelo. Tomei o rumo do ponto de ônibus com o mais largo dos sorrisos. Ao chegar ao ponto, lá estava Tiago, pra meu desespero. Você que me conhece sabe que sou um pouco metido e adoro fingir que não estou vendo alguém. Foi o que fiz. Quando o (filho da puta do) 723 chegou, não hesitei em pega-lo. O tal do Tiago também pegou. Você que me conhece sabe que sou tarado por sentar na janela quando em um ônibus. Foi o que eu fiz, dirigi-me ao único assento no qual os dois lugares estavam vazios. Estavam. Tiago sentou-se imediatamente ao meu lado e estendeu-me a mão. Cumprimentei-o e perguntei sobre sua opção para alistamento (como se não soubesse). Ele respondeu, obviamente, que queria sobrar, e disse ter percebido que eu também queria. Fiz uma piadinha qualquer em relação ao meu cabelo e desliguei o mp3. Ao notar que o ônibus tomara um trajeto diferente do habitual, comentei com Tiago e, por algum motivo que ainda não compreendi, cismei de comentar que meu colégio se localizava perto do Piscinão de Deodoro (e, por algum motivo que ainda não compreendi, cismei de escrever o nome dessa bosta com letras maiúsculas). Ele fez ar de surpreso e perguntou: “O Joel?”. Respondi que sim. Ele disse estudar lá de noite. Comentei que havia ido lá uma vez, pra fazer “campanha eleitoral” na época de eleições do Grêmio Estudantil (outra vez cito algo sem valor com letras maiúsculas). Ele perguntou: “Você era da chapa aliança né?”. Respondi que sim, eu mesmo já ia me esquecendo do nome da chapa pela qual concorrera. Conversamos sobre os (muitos) problemas do Joel até que caí fora do ônibus, após uma cansativa manhã.
Pois bem, cinco meses e alguns dias depois e já de cabelo curto, apresentei-me novamente, com a crença de que só teria que pegar algum documento e só. Não me passava pela cabeça que os fantasmas de ficar pelado e/ou ser forçado a cortar o cabelo voltariam com força total. Antes disso, permita-me narrar as expectativas que eu tinha antes do fatídico 2 de outubro.
Pela manhã do dia 1º de outubro, fui conferir o endereço no qual tinha de me apresentar. Surpreendi-me ao ver que me apresentaria na Vila Militar (lembre-se, eu achei que era só pegar um documento e que já estava livre da obrigação de prestar serviços militares). Voltei a sentir o fantasma militar. Algo me dizia que o pior, ao contrário do que eu vinha pensando desde 24 de abril, ainda estava por vir. “Tô fudido”, pensava ao analisar a situação.
Pois bem, às 4h45min do dia 2 de outubro, já estava acordando. Peguei o 723 (sim, ele também me leva à Vila Militar) e cheguei à 31ª GAC às 5h45min. Chovia. Do lado de fora do GAC, já se formava uma fila com algo em torno de 50 moleques. Entrei na fila já sabendo que era a fila de alistamento. Abaixei o volume do mp3 e tentei analisar cada rosto lá presente. “Quanta gente feia!” – pensei, vendo (novamente) o moleque com marcas de queimadura na pele citado acima. Ao refletir sobre o fato de termos todos chegado tão cedo ao local de apresentação, flagrei-me pensando sobre a influência que a “autoridade” militar tem sobre o modo de agir dos jovens que lá estavam. Às 6h em ponto, um soldado nos chamou para adentrar o quartel. Fomos para um local coberto em forma de retângulo. Lá um tenente separou a cambada entre “1º dia” e “2º dia”, deixando explicito que teríamos que retornar ao local no dia seguinte. Feito isso, recolheu o documento que nos foi dado na primeira apresentação. Feito isso, ficamos sentados com cara de bunda esperando pelo inesperado (vale dizer que, se teve algo que fez parte do período em que lá estive foi esperar).
Passados 20 minutos de porra nenhuma sendo feita, o tenente reapareceu no recinto, devolvendo os documentos e atribuindo a todos um número. E, refletindo o azar que estava por vir, recebi o número 013. Após isso, formamos uma espécie de “pelotão”, com 4 filas de não sei quantas pessoas (isso também aconteceu bastante) e ficamos aguardando (na chuva) a permissão para iniciar os exames físicos.
Depois de mais uma longa espera – de mais ou menos 15 minutos – os recrutas (chega a ser emocionante pensar que eu sou um) foram sendo chamados pelo número para início dos exames. O primeiro era de vista. “Beleza, vou ser reprovado logo de cara!” – pensei. Entretanto, ao iniciar meu teste de vista, fui orientado pelo sargento que comandava o mesmo a NÃO tirar os óculos. Como conhecedor do fato que “se perceberem que você está fazendo corpo mole nos testes, aí que te colocam pra servir”, fiz o teste com seriedade e conduzi tal seriedade para os seguintes. Fiz o teste de força e me pesei. O sargento disse que ambos foram muito bons. Tirei algumas medidas corporais e já fui perdendo a esperança de ser reprovado. O último teste, que media a altura, deixava claro o quanto eu estava perfeitamente apto pra servir a pátria.
Depois disso, fui direcionado para o teste médico. Após 10 minutos esperando não sei o que, entrei na sala e fui orientado pelo médico a ficar só de cueca. Fui dirigido a uma espécie de vestiário, com cinco cabines, uma ao lado da outra. O médico deu a seguinte ordem: “Todo mundo abaixando a cueca até o joelho!”. Como pessoa sem muito pudor que sou, não hesitei em abaixá-la. O médico ia passando por cada cabine e o Kid Júnior começava a contrair-se por efeito do frio. Ao parar em frente a minha cabine, o médico abaixou-se para observar melhor o Júnior. “Puta que o pariu, não quero mais ser ator pornô!” – pensei. Ele mandou que eu encostasse o Júnior na barriga, fechasse a mão e a assoprasse com todo o fôlego. “Será que incha?” – pensei enquanto assoprava.
Fui aprovado em mais esse exame e me mandaram esperar com os demais recrutas em uma barraca de lona repleta por mosquitos. Lá, aguardei mais uns 40 minutos, até que fui dirigido a uma sala, onde faria um teste de raciocínio lógico. Feito isso, fui encaminhado para a entrevista, e recebi o documento que havia entregado logo no começo do dia. Quando o relógio sinalizava 12h30min, pude, enfim, ir pra casa.
No dia seguinte, nada de mais. Uma prova de aptidão e nada mais. Em janeiro saberei o que o destino militar me reserva. Até lá, torço para que nada aconteça contra a minha vontade e que não tenha que perder um ano da vida por uma lei sem nexo em um país com governo sem nexo.

sábado, 27 de setembro de 2008

Do Sonic ao Counter-Strike: A ameaça de jogos eletrônicos ao cérebro da nova geração

28 de agosto de 2008, 03h29min. Plena madrugada. Sono nulo. O desespero que me toma conta é assustador. O motivo? Estou há um mês sem internet. Se você for ver a data no rodapé do texto, verá que esta não coincide com a citada acima.Neste momento, faz 3 horas e meia que cheguei de uma festinha xepa realizada pelo meu curso de espanhol e, depois de algumas partidas de Winning Eleven no videogame de meu primo, vim para casa. Sem sono, tentei (sem conseguir, como vem acontecendo de 30/09 pra cá) entrar na minha internet discada. Sem sucesso fiquei de 02h00min até 10 minutos atrás pensando: por que a ausência de internet me deixa tão estressado?Por menos que seja viciado em coisas do tipo orkuts, MSN, Debilog e bagulhos assim, cheguei num ponto em que passei a me sentir viciado pela falta que o barulhinho da conexão faz.Daí, mais um pensamento: qual é o papel cultural da informática para a juventude .Vejo pessoalmente casos de crianças, pré-adolescentes e pessoas da minha idade que atingiram um nível alarmante de idiotice devido a vícios em jogos eletrônicos.Daí veio-me o pensamento que me fez escrever este texto: crianças viciadas em jogos eletrônicos tendem a criar um mundo paralelo mentalmente, o que pode fazer com que associem ao mundo real este mundo imaginário, encarando-o de maneira infantil e relacionando-se com as demais pessoas como se estivessem ao seu nível de imbecilidade.Não precisa fingir, pois sei que você não entendeu. Vou exemplificar: imagine que você é um jogador de futebol (desculpe, mas futebol é a minha paixão, não vejo nada melhor pra exemplificar). Vamos supor que você inventa um drible (como os elásticos de Ronaldinho e as pedaladas de Cristiano Ronaldo e Robinho). Daí, pensemos que você passe a jogar em dois times simultaneamente: um time europeu, jogando contra os melhores jogadores do mundo, e num time brasileiro, onde os jogadores têm certa limitação na qualidade. O drible que você inventou pareceria ótimo quando aplicado em jogadores que atuam no Brasil. Aí você, achando que o seu drible é fantástico, começa a tentar fazê-lo em jogadores de times europeus, que são melhores e tomariam a bola de você facilmente. Você teria uma desilusão, já que pensava que o seu drible era foda, porém descobriu que não era e quereria jogar só no Brasil, já que aqui o drible faz sucesso e você seria considerado bom.Aqui na rua onde moro há um típico caso de pessoa pessimamente influenciada por jogos eletrônicos. Como não cito nomes, alcunhar-lhe-ei de CC (digamos que, se há algo que falte na casa dessa coisa feia, é desodorante). Conheço esse moleque desde quando ele tinha 10 anos e eu oito. O pobrezinho nunca se primou pela beleza (não estou dizendo que sou bonito, tanto que sou comparado a um dos mais feios jogadores de futebol da atualidade), tampouco pela inteligência (também não estou dizendo que sou inteligente) ou qualquer outra coisa que atraísse o sexo feminino. Depois de seis anos sem nos vermos freqüentemente, algo me chocou, recentemente, em um de nossos raros encontros: a habilidade de CC no jogo “The King Of Fighters 97” (da já citada máquina de flipper da esquina). De três meses pra cá, ele estabeleceu os cinco primeiros lugares que aparecem como recordes na máquina. A partir do momento em que fui testemunha da incrível habilidade de CC no jogo, passei a observar suas ações e a me interessar pela trajetória que este realizou nessa jornada que chamamos de vida (meio Hippie, mas tudo bem). Notei que todas as amizades dele são crianças que aparentam 11 ou 12 anos (sendo que, segundo meus cálculos, hoje em dia ele está com 18 aninhos na cara). Agora se lembre do que eu havia dito anteriormente: “crianças viciadas em jogos eletrônicos tendem a criar um mundo paralelo mentalmente, o que pode fazer com que associem ao mundo real este mundo imaginário, encarando-o de maneira infantil”. Resta saber: o que acontecerá com essas crianças quando se tornarem homens feitos. Que tipo de adultos serão esses moleques? Que tipo de recepção eles terão pro mundo real? Que tipo de recepção o mundo real terá pra eles? O que será do mundo se todas as crianças se deixarem dominar pelo mundo imaginário? Será que o Flamengo vai conseguir se classificar pra Libertadores? Será que o Obina é melhor que o Eto’o? Meu Deus! O que está acontecendo com o mundo...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Rótulos Racistas

Sábado, 02 de agosto de 2008, 23:42

“Nossa! Ou o Matheus não curtiu a noite de sábado ou ta escrevendo de porre!” Errou duas vezes fera. Em uma noite onde quase tudo deu errado, senti-me tão chateado a ponto de tentar achar inspiração para a escrita.
Pra começo de conversa, o plano era curtir a noite de sábado imerso em um belo porre. Não foi bem o que aconteceu e os planos foram por água, ou melhor, vinho abaixo. Fomos hoje à uma boate com o intuito de beber, beijar, esfregar e foder, não necessariamente nessa ordem.
Durante a noite algo, que normalmente acontece comigo sem que eu perceba, me instigou a ponto de me fazer recorrer a escrita (na verdade só estou escrevendo isso porque A BOSTA DO MEU PC PIFOU e O MEU GATO-NET SAIU DO AR, alivio aqui minha raiva). Ao avaliar as meninas que passavam por mim e tentar escolher uma pra pegar de jeito, me flagrei classificando algumas da seguinte maneira: “Ih, que neguinha feia da porra!”.
Após minha saída da boate e agora em minha habitual reflexão pós-festa, fiquei com esta frase na cabeça. Sem muita demora, minha mente me remeteu ao seguinte pensamento: “Por que ligamos a cor da pele da pessoa ao seu padrão estético?”.
Se estendermos um pouco o raciocínio, como fiz até chegar ao ponto de escrever esse texto, podemos pensar em rótulos como “loiraça” e “loira gostosa”. A própria palavra “mulata” - talvez devido a cultura praticamente nula do país onde vivemos, onde o carnaval nos lembra “bundas de mulatas” – já ganha cunho putariotístico (essa aí nem o Aurélio conhece).
Levando as palavras para o aumentativo: pense em uma “loiraça” e em uma “negona”. Aposto que a “loiraça” era linda e gostosa, enquanto a negona aparentava ser feia e, principalmente, gorda.
Levando as palavras para o diminutivo: pense em uma “loirinha” e em uma “neguinha”. Tenho certeza que a “loirinha” tinha baixa estatura e expressão angelical. E aposto que a “neguinha” era bem magra e vou mais além: tinha os dentes tortos.
Não serei hipócrita e dizer que as loiras são feiosas e as negras são lindas, até porque não tenho a intenção de falar sobre estética. Mas é inegável o fato de rotularem a beleza de uma pessoa pela cor de sua pele. E tal fato não se faz presente apenas no que é relativo à beleza.
Voltando ao exemplo da “negona”. Ao tentarmos imaginar uma pessoa com tal rótulo, provavelmente imaginaremos uma mulher com condições de vida demasiadamente humildes e até mesmo com um vocabulário extremamente pobre, talvez até sem todos os dentes na boca. Reforço o que havia dito sublinarmente no parágrafo anterior: temos essa imagem por se tratar da realidade atual, mas não deveríamos rotular uma pessoa como feia, burra ou qualquer outra coisa apenas pela cor da sua pele. Afinal eu mesmo sou negro, lindo e inteligente.