Senhor visitante do Bloguiço, tenha um bom dia. Saiba que você deveria encarar essa visita ao blog, que não é mais do que uma obrigação, como uma grande honra e uma única experiência de vida.
Escroto né? É péssimo pra alguém que, na idade de conseguir a total independência dos pais, saber que tem que ouvir o que não quer de um bando de tenentezinhos de merda. Ainda mais sabendo que a mais branda reação pode ser vista como um desacato (e aí você estaria muito fodido).
Num país onde a mais alta autoridade só estudou até a 5ª série (embora minha professora no curso de inglês me tenha jurado que ele fez uma faculdade), a mesma palavra “autoridade” não deveria ter grande valor. Mas, pelo contrário, algumas leis, como a do alistamento militar obrigatório, têm quase um cunho que recorda os tempos de autoritarismo.
“Ah Matheus, deixa de palhaçada! Você não queria servir por causa daquele cabelo horrível e porque você é muito inteligente e tem um maravilhoso futuro pela frente!” Também, caro leitor. Mas, convenhamos que ninguém deveria ser obrigado a fazer algo que não goste, ainda mais por um país o qual não goste.
Pois bem, 2008 chegou (já faz algum tempo...) e, com ele, o drama da maioria dos jovens de sexo masculino nascidos em 1990: o alistamento (obrigatório) militar.A juventude de hoje em dia não se interessa muito por exército, nada onde o suor seja algo comum é bem vindo. Seja quanto à prática de esportes, ou ainda uma eventual ajuda aos pais nos serviços domésticos. Imagina então ralar pra um bando de sargentinhos metidos a capitão Nascimento? Ninguém hoje em dia é muito de fazer esforço sem recompensa.Há sempre algumas exceções. Conheço alguns jovens que quiseram servir e tenho contatos com gente mais velha, como meu próprio pai, que teve prazer em “prestar serviços à nação”. E, claro, sempre tem o papo de “você vira homem quando entra pro exército”.Dentre os que vêem o alistamento militar como um pesadelo, como eu e a maioria das pessoas que conheço, a palavra que mais vêm à cabeça nesse período é “sobrar”. É o que a quase todos querem.No meu caso, como já disse, não é diferente. No meu ponto de vista servir uma nação que não serve pra mim não faz sentido. Uma nação que não presta serviços a mim não merece que eu preste serviços a ela. Ainda mais sabendo que eu não teria qualquer tipo de vantagem fazendo flexões pra um bando de gente fardada que gosta de mandar. Perderia meu precioso tempo e interromperia o colégio e os cursos. Tudo porque cismaram que num país sem moral internacional, há quem ache que obrigar os jovens a fazer algo sem sentido real seria bom.Pois bem, em medo a todos esses pensamentos, fui, no dia 24 de abril, cumprir o que a lei ordena. Às 08h12min (12 minutos de atraso graças aos 31 minutos que fiquei esperando pela droga do 723, fica aqui o desabafo) cheguei à junta militar pronto pra ficar pelado na frente dos sujeitos e/ou cortar o cabelo após 4 anos de amor e carinho. Já estava com todas as desculpas na ponta da língua: filho único, 4 graus de miopia (é verdade, eu sou cego), 3 cursos e tipo físico inapropriado. Isso porque não levei a sério as dicas de afirmar ser testemunha de Jeová, ir com uma camisa da campanha “Lula 94” ou ainda alegar homossexualismo.Por causa desses 12 minutos de atraso fui obrigado a ficar no penúltimo lugar na fila. Com isso só saí de lá às 11h45min, enquanto os primeiros da fila saíam às 9 horas. Nesse meio tempo, um pouco de tudo me passou pela cabeça.Logo que cheguei, o moleque que estava na minha frente (vim saber depois que este se chamava Tiago) veio me perguntar algo relativo à multa. Quem me conhece sabe o quanto tenho a audição prejudicada pelo uso excessivo de mp3. Escutei algo tipo: “dabuçadiquiagidi multa?”. Como a melhor resposta deveria ser negativa, já que ninguém gosta de multa, respondi: “Não, cara. Acho que não.”. Esse Tiago aparentava ter 30 anos, e isso me chamou atenção para o fato que minha mente (lerda) demorou a atestar: todos naquela bendita (ou maldita) fila tinham 17 ou 18 anos, embora alguns parecessem ter 14 e outros 41.Como moleque burro metido a pensador que sou, comecei a reparar em cada um dos rostos e cheguei à conclusão: ninguém aqui quer servir. Lá pude ver gente de todos os tipos: piercings na boca, tênis de R$400, sinais evidentes de futura calvície, tatuagens, marcas de queimadura na pele, tudo mesmo. E todos com a minha idade.À medida que o tempo passava maior era a minha vontade de ser chamado rapidamente e acabar de uma vez com o pesadelo. Entretanto, meu atraso me condenou ao sofrimento em maior tempo. Aos poucos a fila se esvaziava e ia chegando o meu momento de encarar o fatídico momento.Quando enfim chegou minha vez, eu e os outros 5 que estavam na minha frente (esqueci de falar, eles iam chamando de 6 em 6) fomos dirigidos a uma sala onde daríamos as informações necessárias, como endereço, CEP, telefone e essas paradas. Em meio a essas perguntas todas, que já vinham confundindo minha cabeça, o sujeito perguntou: “Deseja servir, Matheus?”. Por um segundo meu piloto automático pensou em responder que sim, mas rapidamente tomei consciência da besteira que faria e mandei o piloto automático tomar no cu. Respondi, obviamente, que não. Ao sair daquela sala, fui encaminhado à outra, onde assinaria um documento qualquer lá e colocaria minha impressão digital (é a mesma coisa que carimbar um dedo com tinta num papel) no fatídico documento. Na fila para a limpeza do dedo (vale citar que eles cediam uns papéis de uns documentos malucos lá e a gente tinha que se virar com aquilo), Tiago, notando minha respiração ofegante, indagou-me: “Tá nervoso cara?”. Respondi que sim, já que chegaria tarde ao colégio. Depois disso, fui a mais uma sala, vi um cara escrever alguns dados sobre mim e fui dispensado, só tendo que me apresentar no dia 2 de outubro. SÓ ISSO. Vi-me livre do pesadelo sem ficar pelado e/ou cortar o cabelo. Tomei o rumo do ponto de ônibus com o mais largo dos sorrisos. Ao chegar ao ponto, lá estava Tiago, pra meu desespero. Você que me conhece sabe que sou um pouco metido e adoro fingir que não estou vendo alguém. Foi o que fiz. Quando o (filho da puta do) 723 chegou, não hesitei em pega-lo. O tal do Tiago também pegou. Você que me conhece sabe que sou tarado por sentar na janela quando em um ônibus. Foi o que eu fiz, dirigi-me ao único assento no qual os dois lugares estavam vazios. Estavam. Tiago sentou-se imediatamente ao meu lado e estendeu-me a mão. Cumprimentei-o e perguntei sobre sua opção para alistamento (como se não soubesse). Ele respondeu, obviamente, que queria sobrar, e disse ter percebido que eu também queria. Fiz uma piadinha qualquer em relação ao meu cabelo e desliguei o mp3. Ao notar que o ônibus tomara um trajeto diferente do habitual, comentei com Tiago e, por algum motivo que ainda não compreendi, cismei de comentar que meu colégio se localizava perto do Piscinão de Deodoro (e, por algum motivo que ainda não compreendi, cismei de escrever o nome dessa bosta com letras maiúsculas). Ele fez ar de surpreso e perguntou: “O Joel?”. Respondi que sim. Ele disse estudar lá de noite. Comentei que havia ido lá uma vez, pra fazer “campanha eleitoral” na época de eleições do Grêmio Estudantil (outra vez cito algo sem valor com letras maiúsculas). Ele perguntou: “Você era da chapa aliança né?”. Respondi que sim, eu mesmo já ia me esquecendo do nome da chapa pela qual concorrera. Conversamos sobre os (muitos) problemas do Joel até que caí fora do ônibus, após uma cansativa manhã.
Pois bem, cinco meses e alguns dias depois e já de cabelo curto, apresentei-me novamente, com a crença de que só teria que pegar algum documento e só. Não me passava pela cabeça que os fantasmas de ficar pelado e/ou ser forçado a cortar o cabelo voltariam com força total. Antes disso, permita-me narrar as expectativas que eu tinha antes do fatídico 2 de outubro.
Pela manhã do dia 1º de outubro, fui conferir o endereço no qual tinha de me apresentar. Surpreendi-me ao ver que me apresentaria na Vila Militar (lembre-se, eu achei que era só pegar um documento e que já estava livre da obrigação de prestar serviços militares). Voltei a sentir o fantasma militar. Algo me dizia que o pior, ao contrário do que eu vinha pensando desde 24 de abril, ainda estava por vir. “Tô fudido”, pensava ao analisar a situação.
Pois bem, às 4h45min do dia 2 de outubro, já estava acordando. Peguei o 723 (sim, ele também me leva à Vila Militar) e cheguei à 31ª GAC às 5h45min. Chovia. Do lado de fora do GAC, já se formava uma fila com algo em torno de 50 moleques. Entrei na fila já sabendo que era a fila de alistamento. Abaixei o volume do mp3 e tentei analisar cada rosto lá presente. “Quanta gente feia!” – pensei, vendo (novamente) o moleque com marcas de queimadura na pele citado acima. Ao refletir sobre o fato de termos todos chegado tão cedo ao local de apresentação, flagrei-me pensando sobre a influência que a “autoridade” militar tem sobre o modo de agir dos jovens que lá estavam. Às 6h em ponto, um soldado nos chamou para adentrar o quartel. Fomos para um local coberto em forma de retângulo. Lá um tenente separou a cambada entre “1º dia” e “2º dia”, deixando explicito que teríamos que retornar ao local no dia seguinte. Feito isso, recolheu o documento que nos foi dado na primeira apresentação. Feito isso, ficamos sentados com cara de bunda esperando pelo inesperado (vale dizer que, se teve algo que fez parte do período em que lá estive foi esperar).
Passados 20 minutos de porra nenhuma sendo feita, o tenente reapareceu no recinto, devolvendo os documentos e atribuindo a todos um número. E, refletindo o azar que estava por vir, recebi o número 013. Após isso, formamos uma espécie de “pelotão”, com 4 filas de não sei quantas pessoas (isso também aconteceu bastante) e ficamos aguardando (na chuva) a permissão para iniciar os exames físicos.
Depois de mais uma longa espera – de mais ou menos 15 minutos – os recrutas (chega a ser emocionante pensar que eu sou um) foram sendo chamados pelo número para início dos exames. O primeiro era de vista. “Beleza, vou ser reprovado logo de cara!” – pensei. Entretanto, ao iniciar meu teste de vista, fui orientado pelo sargento que comandava o mesmo a NÃO tirar os óculos. Como conhecedor do fato que “se perceberem que você está fazendo corpo mole nos testes, aí que te colocam pra servir”, fiz o teste com seriedade e conduzi tal seriedade para os seguintes. Fiz o teste de força e me pesei. O sargento disse que ambos foram muito bons. Tirei algumas medidas corporais e já fui perdendo a esperança de ser reprovado. O último teste, que media a altura, deixava claro o quanto eu estava perfeitamente apto pra servir a pátria.
Depois disso, fui direcionado para o teste médico. Após 10 minutos esperando não sei o que, entrei na sala e fui orientado pelo médico a ficar só de cueca. Fui dirigido a uma espécie de vestiário, com cinco cabines, uma ao lado da outra. O médico deu a seguinte ordem: “Todo mundo abaixando a cueca até o joelho!”. Como pessoa sem muito pudor que sou, não hesitei em abaixá-la. O médico ia passando por cada cabine e o Kid Júnior começava a contrair-se por efeito do frio. Ao parar em frente a minha cabine, o médico abaixou-se para observar melhor o Júnior. “Puta que o pariu, não quero mais ser ator pornô!” – pensei. Ele mandou que eu encostasse o Júnior na barriga, fechasse a mão e a assoprasse com todo o fôlego. “Será que incha?” – pensei enquanto assoprava.
Fui aprovado em mais esse exame e me mandaram esperar com os demais recrutas em uma barraca de lona repleta por mosquitos. Lá, aguardei mais uns 40 minutos, até que fui dirigido a uma sala, onde faria um teste de raciocínio lógico. Feito isso, fui encaminhado para a entrevista, e recebi o documento que havia entregado logo no começo do dia. Quando o relógio sinalizava 12h30min, pude, enfim, ir pra casa.
No dia seguinte, nada de mais. Uma prova de aptidão e nada mais. Em janeiro saberei o que o destino militar me reserva. Até lá, torço para que nada aconteça contra a minha vontade e que não tenha que perder um ano da vida por uma lei sem nexo em um país com governo sem nexo.